Câncer de pele: pesquisa testa novo tratamento que pode reduzir tumores sem cirurgia invasiva

  • 13/06/2026
(Foto: Reprodução)
Imagem de arquivo mostra pinta que pode ser câncer de pele Divulgação A combinação entre anti-inflamatório e um complexo de prata pode transformar o tratamento do câncer de pele não melanoma, considerado o de maior incidência no Brasil, em uma terapia menos invasiva e traumática para os pacientes. A técnica, que está em fase de testes, faz parte de uma pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que busca desenvolver uma alternativa aos tratamentos convencionais deste tipo de câncer. Em estudos preliminares, o tratamento mostrou potencial para dispensar a cirurgia, já que consiste na aplicação, direto na pele, da substância que une a prata ao anti-inflamatório. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Campinas no WhatsApp O câncer de pele não melanoma atinge áreas do corpo que ficam mais expostas ao sol, como orelha, nariz e boca. O principal tratamento convencional é chamado de “ressecção”, que consiste na remoção de uma parte ou da totalidade do órgão ou tecido atingidos. Esse procedimento pode ser agressivo, afetar a função do tecido e a autoestima do paciente. O estudo já passou por etapas pré-clínicas, que envolvem testes em células e em camundongos, e está sendo avaliado em humanos desde o início de 2026. Dependendo dos resultados, os pesquisadores pretendem submeter a técnica à análise da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), com a expectativa de que ela possa chegar ao mercado nos próximos anos. O Dia Global de Conscientização sobre o Câncer de Pele Não Melanoma é celebrado neste sábado (13). Para entender o tratamento, o g1 conversou com a médica oncologista Carmen Silvia Passos Lima, coordenadora do Serviço de Oncologia Clínica do Hospital de Clínicas da Unicamp e do Laboratório de Genética do Câncer (Lageca) da Faculdade de Ciências Médicas (FCM). Nesta reportagem você vai ver: Qual o objetivo do tratamento com o complexo de prata e anti-inflamatório Por que a combinação é promissora para os pesquisadores Como o tratamento funciona e o que os estudos já mostraram Em que etapa a pesquisa está atualmente Quais outras vantagens da terapia criada na Unicamp Tratamento inovador quer reduzir mutilações e cicatrizes O câncer de pele não melanoma não é o tipo mais letal, nem o mais agressivo. No entanto, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA), é o de maior incidência no Brasil. Embora tenha alta chance de cura, principalmente se for detectado de forma precoce, ele pode deixar mutilações bastante expressivas. Isso ocorre porque o principal tratamento é retirar, por meio de cirurgia, o tumor e os tecidos de seu entorno, como explica a médica oncologista. “A ressecção do tumor pode deixar sequela para o paciente. A cirurgia pode deixar, por exemplo, uma mutilação no lábio. Você tira um pedaço do lábio e a pessoa fica com alteração estética, na fala, na mastigação”. “Pode ficar com uma prótese nasal, que é uma prótese bem feita, mas muda as feições da pessoa e a funcionalidade. Então, você perde o órgão importante, perde a sensibilidade”, completa Carmen. 🩹 Entenda: melanoma é um tipo de câncer de pele que surge nos melanócitos (células que produzem o pigmento da pele), enquanto "câncer de pele não melanoma" é o termo usado para reunir outros tipos mais comuns da doença, como os carcinomas basocelular e espinocelular. A palavra "melanoma" significa, literalmente, um tumor originado das células produtoras de melanina. A pesquisa, em desenvolvimento há 12 anos na Unicamp, quer minimizar isso e reduzir a necessidade da ressecção. Os cientistas trabalham na criação de um composto que se mostrou eficiente nos testes com células e em animais. Por que associar complexo de prata e nimesulida O tratamento está sendo aplicado em casos de carcinoma de células escamosas cutâneo (CCEC) e usa o composto de complexo de prata (Ag) associado à nimesulida (NMS) desenvolvido por pesquisadores do Instituto de Química da Unicamp. De acordo com a médica, a prata é descrita na literatura como um metal de potencial antitumoral, enquanto a nimesulida atua no processo inflamatório do tumor, o que controla seu desenvolvimento e progressão. A combinação está sendo chamada de AgNMS. "Nós pensamos assim: será que se associar os dois compostos, um composto que sabidamente tem efeito antitumoral, inibir proliferação de células e um anti-inflamatório, do qual esse tumor depende, será que não pode ser uma boa opção, quer dizer, uma boa alternativa?", comenta Carmen. ☀️ Entenda: o CCEC é o segundo mais prevalente entre os cânceres humanos – o câncer de pele basocelular é o mais frequente, com 70% dos casos, e o CCEC é o segundo, com 30%. Ele tem origem na camada mais externa da pele e ocorre, principalmente, pela exposição aos raios UV. LEIA TAMBÉM: Mais pobres têm maior risco de morte por câncer, mesmo com menos diagnósticos, aponta estudo da Unicamp Teranóstica: abordagem que rastreia e ataca câncer com radiação direto na célula é testada no Brasil Da diminuição à remissão: o que mostram os primeiros testes Carmen explica que o objetivo inicial era apenas reduzir o tamanho do tumor e, consequentemente, diminuir a área de pele que deveria ser retirada. No entanto, os resultados promissores abriram a perspectiva de remissão total. Veja o que foi observado nas primeiras etapas do estudo: Primeiro, o AgNMS foi testado em células tumorais e não tumorais (normais) de diferentes linhagens de câncer, inclusive o CCEC. Esse teste mostrou que a substância inibiu a proliferação do CCEC sem afetar as células saudáveis, o que mostrou que o composto tem ação seletiva contra células tumorais. Depois, foram feitos experimentos em camundongos com CCEC. Neles, o AgNMS foi acoplada a uma membrana bacteriana e um patch adesivo, como um curativo, colocado diretamente na área do tumor. O AgNMS reduziu os tumores ou levou ao seu desaparecimento sem efeitos tóxicos para os animais. 🦠 A membrana bacteriana faz com que a AgNMS seja liberada de forma contínua na pele, diferentemente do que ocorreria com um creme tópico, por exemplo, que precisaria ser reaplicado. A associação da membrana ao adesivo recebeu duas patentes, uma nacional e outra internacional, por se tratar de uma técnica inovadora para o tratamento do CCEC. "Nós utilizamos como se fosse um band-aid, um patch, pra segurar essa membrana. Fica uma fita colante segurando a membrana bacteriana, que parece uma gelatina. A membrana fica impregnada por essa substância e é colada em cima da região do tumor. Os animais tiveram uma resposta muito boa, uma redução muito importante. Em alguns, tumores muito grandes desapareceram". "Depois disso, nesses animais em que o tumor desapareceu, nós fizemos biópsia. Pegamos fragmentos dessa pele pra ver se tinha tumor do ponto de vista microscópico e não tinha. Também não teve toxicidade local e nem sistêmica. Fizemos exame de sangue e das funções hepática e renal, e a toxicidade foi mínima", completa a médica. Esses primeiros resultados foram publicados na revista científica Pharmaceutics em 2022. Quais as próximas etapas e quando chega ao mercado O estudo da AgNMS passou pela etapa da pesquisa básica de desenvolvimento, que consiste na síntese da molécula; pela fase pré-clínica, que são os experimentos em células e animais, e, desde o início deste ano, está em avaliação na fase clínica, com experimentos em humanos. Nessa etapa serão duas fases: a I, em andamento, e a II, prevista para começar em até três meses. O estudo de fase I tem o objetivo de verificar se, em doses crescentes, o AgNMS causa toxicidade ao paciente. Ela vai determinar qual será a dose adequada a ser usada na fase II e, por enquanto, vem sendo aplicada em três pacientes com CCEC atendidos no Hospital de Clínicas da Unicamp. O estudo de fase II será realizado em um grupo de 20 a 30 pacientes com CCEC também do HC da Unicamp. Eles serão tratados com o AgNMS com a dose definida no estudo de fase I, também com aplicação do patch com membrana de celulose bacteriana. Segundo os pesquisadores, se reduções parciais ou totais do tumor forem observadas nessa etapa com humanos, o complexo poderá chegar ao mercado após passar avaliação e aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Alternativa à quimioterapia, imunoterapia e radioterapia Além de reduzir ou excluir a necessidade de cirurgia, o tratamento com o composto criado na Unicamp tem potencial para ser uma alternativa eficiente à quimioterapia, imunoterapia ou radioterapia, segundo os pesquisadores. Eles explicam que, atualmente, pacientes com estágios avançados de CCEC são frequentemente inelegíveis à cirurgia ou radioterapia, pois essas opções podem causar anormalidades funcionais, desfiguração ou problemas psicológicos. Nesses casos, é recomendada a quimioterapia com cisplatina, que oferece benefícios clínicos, mas tem toxicidade potencialmente grave. Outra opção é a imunoterapia com cemiplimabe, que tem custo elevado para pacientes que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS). Carmen afirma que a AgNMS, na aplicação adesiva com membrana bacteriana, tem apresentado, nos estudos realizados até o momento, toxicidade mais baixa do que a da quimioterapia, sendo também menos agressiva do que a cirurgia ou a radioterapia, e mais barata do que a imunoterapia. O avanço da pesquisa é resultado da interação das pesquisas básica, pré-clínica e clínica realizadas no Centro de Inovação Teranóstica em Câncer, o CancerThera, que tem o apoio financeiro da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e sede na Unicamp. Teranóstica: abordagem detecta e trata câncer com radiação direto na célula VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e Região A AgNMS, na aplicação adesiva com membrana bacteriana, e Veja mais notícias sobre a região na página do g1 Campinas.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/06/13/cancer-de-pele-pesquisa-testa-novo-tratamento-que-pode-reduzir-tumores-sem-cirurgia-invasiva.ghtml


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